Desafio da Análise Prévia em Ato de Concentração e um Feliz Natal.

É um lance ver como o clichê do “dia após o outro” realmente muda a gente.
O tempo muda. Se bobear a chuva pode te mudar, ou apenas molhar.

Quando estou confuso com o presente acabo me afundando nas coisas do passado, vendo coisas antigas, ouvindo coisas antigas e procurando aqueles arquivos antigos que nem lembrava mais que tinha nesse computador velho de casa.

Eis que acho um texto que escrevi em abril desse ano as duas da madrugada de um domingo provavelmente entediante.
Daí meio que voltei no tempo lembrando comé que surgiu esse texto bizarro.
Naquela época abriu um concurso literário pra todas as faculdades do Brasil, pra todos os cursos, enfim, pra todo mundo. Eu acho, nem lembro direito.
E eu fiquei empolgadíssimo quando vi o e-mail. Pô, concurso literário, que gostoso, fiquei animadíssimo pra pôr em prática a minha escrita.
“Demorô”

Daí fui ler o regulamento e eis que me deparo com o tema:
Desafio da Análise Prévia em Ato de Concentração

Ô loco!!Que porra é essa? Fiquei viajandíssimo.
Fala sério né… Isso pra mim não é tema de concurso literário… Comecei a rir feito um idiota.

Fui pesquisar o que que era essa merda e era um lance de Economia duma lei vigente aí e tal que tinha saído e era uma das principais mudanças impostas e o caralho…

Ah…na real, broxei.
Beleza, pode até ser uma coisa importante essa lei escrota aí, mas isso não é tema de concurso literário…Pra mim não.

Fiquei puto. Mas daí eu resolvi avacalhar e escrever uma narrativa baseada nisso mas levada ao pé da letra.

Desafio da Análise Prévia em Ato de Concentração. Então eu imaginei um cara meio avoado da vida que sempre se arrepende e se esquece das coisas que faz e por isso decidiu fazer uma análise prévia de todos os seus atos antes de cometê-los.

hahahah..que viagem…
Mas foi isso. Escrevi um pequeno texto, mas nem tive coragem de mandar. Não tinha nada a ver com o tema realmente. Era só eu brincando com as palavras.

Gostei de ter achado ele.
E resolvi postar aqui.

Desafio da Análise Prévia em Ato de Concentração

Estômago estranhamente arde e resolvo não economizar mais em nada, nem em palavras, nem financeiramente. Preciso me cuidar.
Acabo economizando um pouco as energias ficando umas duas ou três horas a mais na cama. Levanto morto.

Visto aquela mesma camisa de ontem, pois não a usei tanto ao ponto de suar demais e trazer o meu cheiro pra fora da roupa. Desço a ladeira até a padaria. Não economizo na dose do café. O que me economiza tempo de encontrar mais alimentos que me darão uma gastura forte até o final do dia.
Peço então um pingado e um pão na chapa. Confiro encostando a mão no bolso da camisa o número de moedas que estão dentro. Tem umas três. Duas grandes e outra pequena, porém grossa. Devo ter uns 2,50. Talvez tenha alguma nota perdida pelos bolsos da calça.
Quando o café é servido, por um breve instante me encho de uma ansiedade tamanha que me vejo nos pensamentos pegando a xícara e tomando de uma maneira muito animalesca e por fim queimando os lábios com o café quentíssimo.

Volto-me para o exterior. Estamos todos aqui ainda. Eu. Moça que serviu o café, já se retirando. Moedas na camisa. E o café me encarando.

Com uma suavidade concentrada aproximo a mão direita no cabinho da xícara e viro paro o lado esquerdo, eu só tomo café segurando com a mão esquerda, pois assim tomo café no lado que a minoria toma na xícara, portanto evito pegar resquícios salivares dos antecessores dessa xícara.
Antes de tomar, dou três assopradas com espaçamentos de tempos que funcionam para os meus olhos se voltarem para toda a padaria e ver se há alguém interessante por ali.
Não havendo ninguém do meu interesse e a garantia de que o café já está um pouco mais morno, tomo uma goladinha com todo gosto do mundo, ou ao menos, o pouco que sobrou.
Está divino. Café aguado e o leite levemente azedo. Devem ter colocado umas 5 colheres de açúcar para compensar esse azedo.
Dou mais uma golada grande para acabar mais depressa, meu pingado já gelou cansado de esperar o pão na chapa que parece não sair nunca.

Quando dou o último gole chega meu pão na chapa. Por um instante penso ter visto um rosto conhecido que passou e me fitou na rua. Será? Preciso ver. Minha curiosidade ansiosa não me permite ficar o resto do dia aqui sofrendo e tentando imaginar quem era aquela pessoa.
Numa ação sem análise pego correndo o pão na chapa e meto-o na boca e no mesmo instante o cuspo todo no chão. Queimei toda minha boca. Puxa como arde… Esse pão na chapa só pode ter vindo do inferno.
Sem tempo de sofrer tiro as moedas do bolso , coloco no balcão e me atiro desesperadamente na rua procurando ver se noto aquela pessoa no meio de toda aquelas outras. A rua está especialmente lotada hoje pelo fato de eu me importar com ela.
Por fim, não vejo mais ninguém. Apenas muitas pessoas, mas no fundo, ninguém.
Olho pros lados. Pergunto-me onde estou. Por que estou na rua?
Uma mosca desconcentra a fluidez do meu pensamento e volto para a padaria pra tomar um café e um pão na chapa pra começar meu dia.

Dsjo

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