Tomá geral.

Esse é foi um cartaz que fiz junto com o Help para esse lance que rolou no Jack com a banda do meu amigo Danilo

Terça feira. Três da tarde. Decido ir mais cedo pra faculdade. Vou pro banho. Saio do banho. Só de cueca vou escolher uma camiseta. Vejo aquela do Speed Racer. Lembro que era essa que estava usando na vez que fui assaltado em São Paulo. Escolhi minha camiseta preta do Che Guevara. Tenho medo da camiseta do Speed desde que aquilo aconteceu.

Acho minha chave. Quase quatro da tarde.
Desço de elevador. Digo tchau pra senhora da portaria.
Na rua em frente o prédio aguardo abrir o sinal preu atravessar a rua.
Pára um camburão da polícia bem devagar perto de mim. Cinco homens dentro. Três saem olhando de maneira furiosa pra mim. Os três seguram suas armas. Eu me seguro pra não mijar nas calças. Ergo as mãos, desesperado. Num tom delicado e suave um deles diz.
“O que cê tá fazendo aqui?”
“T-tô esperando p-pra a-atravessar a rua…”
“Cê mora aqui?”
Aponta pro prédio
“Sim!”
Com a delicadeza que ele expressa suas palavras, se ele perguntar se eu moro na zona eu afirmo. Meu coração bate tão forte que sinto que eles vão pensar que sou um homem-bomba com uma bomba relógio escondida no peito.
“Que que cê tem nessa mochila?”
“Eu tenh…”
“Tira ela!! Pega seu R.G.”
“ Acabaram de assaltar uma loja aqui na rua de cima. Era um rapaz armado, com uma mochila, camiseta preta do Bob Marley e pelo jeito se parece muito com você!”
“Não…como assim? Eu moro aqui…Esse é o Che”
Ele me revista inteiro. Me aperta inteiro e me deixa constrangido diante das pessoas que passam de carro.Ele abre minha mochila como se fosse um cachorro rasgando um saco de lixo desesperadamente buscando comida.
Pega o livro Coraline da Lá, pega minhas páginas teste de quadrinhos, olha pra tudo, olha pra mim.
“Que que você estuda?”
“D-d-design…”
“Designer?”
“É…”
“Você usa droga?”
“Não.”
“Cê tem passagem na polícia?”
Achava que passagem só se arrumava em rodoviária.
“Não, senhor…”
Ele pega minha carta de motorista, vai até o camburão, fala no rádio olhando pra mim, pega uma prancheta, anota várias coisas enquanto o outro policial está parado do meu lado me olhando com a mão na arma. O terceiro policial que desceu do carro simplesmente sumiu. Ou eu me confundi de tão nervoso que estava.
“ Óquei Camilo, muito obrigado… Num é ele não” Ele diz pro outro guarda.
“Mas é bem parecido, que coincidência né?”
O policial já está mais sorridente.
Não falo quase nada.
Eles saem me deixando com a mochila toda aberta, escancarada e me deixando com o coração ainda batendo muito forte.
Até eu arrumar minha mochila novamente e voltar para a espera do sinal de pedestres abrir, passam três motos de policiais quase parando, me encarando novamente.
Caralho. Só faltava esses me pararem também. Não pararam.

Eu gostava tanto dessa camiseta do Che Guevara.

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4 comentários sobre “Tomá geral.

  1. MANO!
    Que caraleo, que dia, ein? Lá se vai mais uma camiseta.
    Gostei muito do que você disse sobre a segurança, acredito nas mesmas coisas. Estudante de verdade, que está em uma faculdade para aprender tem mais coisas pra se preocupar e reivindicar do que a liberação da maconha. Também acho que as coisas melhorariam muito com a legalização, mas essa é outra história que não se limita a estudantes barbudos, rs.

    Quanto a camiseta e ao assalto, só me fizeram pensar em como as coisas são bizarras. Primeiro porque esse tipo de coisa a gente nunca acha que vai acontecer com a gente ou com pessoas perto da gente. Podem falar o que quiser, mas ser parado de sopetão por policiais faz a gente ficar com a perna mole.
    Mas a camiseta, cara, uma simples escolha de camiseta, que passou por uma outra escolha em NÃO USAR a do Speed Racer… Tudo parecia estar muito encaixadinho pra isso acontecer e, ao mesmo tempo, ter escolhido outra camiseta desarmaria completamente esses acontecimentos.
    Fico brisando assim porque fui atropelado há uns meses dessa mesma forma: saí de casa num horário errado porque um amigo fez a cagada de me chamar as 8h sendo que ele quis dizer 20h. Voltando pra casa passei pelo supermercado e fiquei enrolando lá por não ter motivo pra voltar pra casa. Pra não desanimar comecei a cantar um Sabbath segundos antes de atravessar a rua, estava verde para o pedestre e naquela esquina é proibido os carros virarem e PÁ, tomei um para-choques na perna. Se fosse um segundo depois o carro nem teria relado em mim, se fosse um segundo antes teria sido feio.
    Enfim, tem horas que a vida parece toda predestinada e tem horas que é um grande caos. Belo post.

  2. Eu me lembro bem de você contando como foi assaltado em São Paulo. Foi uma história que eu nunca esqueci porque me impressionou muito o jeito como você se impressionou. Eu nunca fui assaltada e moro aqui desde que nasci. Você passou pouco tempo e experimentou coisas desagradáveis, como a antipatia dos cobradores de ônibus ou a desigualdade social escancarada nas ruas dessa cidade turbilhão de coisas. É uma pena que sua impressão daqui não seja das melhores.
    Mas fico chateada é com a falta de informação. A questão da maconha é colocada como a mais importante em todo esse processo de indignação dos alunos contra a PM. Mas não é verdade. Isso é o que chega através da mídia pra todo mundo. E todos compram essa ideia sem questionar.
    O seu relato sobre a abordagem bruta que te fizeram quando você saia de casa é muito semelhante ao que acontece na USP hoje e o que revolta as pessoas, não apenas os estudantes. Digo isso porque muito professores foram abordados dessa maneira na frente da biblioteca da faculdade de filosofia, letras e ciências humanas, onde estudo e trabalho. Professores e não estudantes com camisetas de Bob Marley ou de Ches. O que está em jogo em toda essa história, de fato, afirmo com propriedade, não é a maconha. O que está em jogo naquela universidade é o papel da PM dentro do campus, que não está bem definido.
    Na teoria, a PM está no campus pra trazer mais segurança. Na prática não. Na prática, a PM estava fazendo uma blitz gigante no dia em que o estudante da FEA morreu. Na prática, a PM estava no campus, quando o Centro Acadêmico da Escola de Comunicação e Artes foi roubado, e levaram todo o equipamento de som, impedindo um show de uma banda de estudantes na semana seguinte. Na prática, a PM está no campus, mas não está na frente da Biologia, na rua do Matão, a rua mais escura da universidade, quando são 22:30 e os alunos saem da aula. Na prática a PM está rondando a FFLCH, polo de manifestações políticas e não na frente da entrada da favela São Remo, de onde os alunos compram a maconha que usam. Afinal a PM está lá para nos proteger ou para que tenhamos medo dela?
    Queremos segurança, mas não queremos ser reprimidos dessa maneira. Queremos que nosso reitor resolva esse problema com uma segurança apropriada na universidade. Que saiba acudir mulheres que foram estupradas, carros que foram roubados e homens assaltados. Uma segurança da universidade e não um convênio com um aparato militar que não dialoga nunca.
    Tudo explodiu com a questão da maconha, mas asseguro que isso foi o estopim de uma insatisfação antiga naquela universidade.
    Sinto saudade de você e das discussões sobre a vida, Camilo!
    Um beijo da sua amiga peruana.

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