I got the power.

Ser criança é uma das coisas mais difíceis do mundo… Ter 8 anos doía demais, muito por causa das outras crianças maldosas, mas principalmente por causa dos adultos que nos entregam de graça traumas pra carregarmos a vida toda.
Acho que já disse isso. Repito. A vida de um ser humano nada mais é do que você passar a vida toda tentando consertar e se livrar dos demônios que adquirimos na infância.

Lembrei de um trauma hoje. Um dos grandes, pois no momento que lembrei, me senti estranho.

Quando eu era pequeno eu amava os Power Rangers, mas também quem que não amava, né?

Acompanhava diariamente a série que passava de manhã, se não me engano. À tarde ia brincar com meu irmão, primos e amigos, de Power Rangers.
É chegada a hora da escolha de personagens. Um a um. Eu era sempre o primeiro. Não deixava ninguém escolher antes de mim. Escolhia o Zack.

O Zack? Alguém pergunta.
É… Que tem?
O Zack é negro, você não pode ser ele…
Alguma criança maldosa insistiu que eu não podia ser o Zack pelo fato dele ser negro e eu ser branco. Pensei se toda criança negra quando fosse brincar de Power Rangers só podia ser o Zack… E se tive mais de um negro?? Não entendia a lógica deu não poder ser ele.

Começo a discutir com essa criança. Sacamos nossas armas. Várias voadoras e golpes mortais. Vendo que a briga está longe de acabar, chamamos nossos robôs gigantes. Os Megazórds. O meu é um robô Mastodonte. O dele é um Tiranossauro Rex. Lutamos entre os prédios da nossa cidade. Mas não é São Manuel. Pois aqui só tem dois edifícios. E o nosso cenário é infestado de prédios. Por fim ganho. Sempre ganhava. Era o mais gordo. O maior de todos.
Mas isso logo mudou. Rapidíssimo todo mundo ficou maior que eu e fiquei pra trás. Ainda bem. Não me sentia bem sendo tão grande.

O Zack saiu dos Powers Rangers.
Foi um choque. Não entendia porque que ele havia me abandonado. Eu que lutei tanto pelos direitos dele… Foi triste. Achei que nunca mais seria o mesmo.

Até que chega o Tommy. O Ranger branco.
Finalmente, eu via mais uma vez um motivo pra morfar.

Amava o Tommy. Fiquei pirado com ele. Personagem demais. Cabeludo. Descolado. Namorava a Kimberly que era a Ranger Rosa. Ele era o cara.
E eu o gordo.

Eu não podia ser o Tommy segundo uma das crianças, pois não era forte nem tinha cabelos compridos.

Muito tempo depois eu deixei o cabelo crescer. Só agora reparei que era por causa do Tommy. E não pra parecer um hippie, ou um rocker ou qualquer coisa bem artificial que todo mundo tenta ser pelo menos uma vez na vida.

O que eu mais achava legal nos Powers Rangers, era que cada Ranger usava somente roupas das cores que eram seus uniformes. Portanto, eu sendo o Tommy, tinha que usar roupa branca.
Fiz minha mãe comprar um sapatinho branco. Camisa branca eu já tinha. Calça branca ela também comprou. Acho que até um boné arrumei.

Saí na rua. Todos os adultos que passavam por mim zombavam-me perguntando se eu era médico ou dentista e riam até não agüentar mais.

Fiquei muito triste, envergonhado e me sentindo ridículo.
Tirei a roupa branca e nunca mais morfei.

Tem adultos que nos fazem crescer antes do tempo, mesmo sem saber.

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4 comentários sobre “I got the power.

  1. Oi Camilo! Muito bom esse texto novo.
    a infância é um poço de traumas, mesmo, e muito disso devo ao nosso amado La Salle. sempre lembro disso nessas conversar sobre infância. sempre lembro também que você sempre foi pra mim o cara mais legal do la salle! nego bom ao extremo, grande Camilo!

  2. Camilão, adorei esse texto cara… muito bem escrito. Um dos traumas mais fortes que eu tenho foi no dia que eu resolvi parar de ser ninja pra revitalizar minhas orígens indígenas. Minha cachorra escapou na mesma tarde… enfrentei os monstros de lata e tudo pra correr atrás do bicho… Zombaram de mim só porque eu tava só de cueca, sem camisa e uma faixa de karatê na cabeça.

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